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Histórias do Corpo 2 – O Desafio de Sofia

O Desafio de Sofia

Aos onze anos, às portas da puberdade, uma garota costuma ser movimento. Os pensamentos são flashes de um futuro que é o dia seguinte. Na imobilidade do gesso não se reconhece a Sofia de ontem. No olhar, as mesmas vontades de sol e de mar; de amigos, cinema e festas. Não foi diferente com Sofia até surgir,na perna, uma dor que se tornava mais forte a cada dia.Tão forte a ponto das férias, na praia, serem interrompidas para uma consulta em Porto Alegre.Foi emmeio a todas essas descobertas que Alessandra e eu nos entrelaçamos, por alguns anos, na vida da Sofia.Em meados de 1996, dois jovens fisioterapeutas,transbordando vontade de fazer a diferença nas vidas das pessoas, se viam à frente de um dos seus primeiros atendimentos domiciliares. Não se envolver emocionalmente com os pacientes era conceito ensinado na universidade. Conceito que caiu por terra,logo ao primeiro contato com a paciente e sua família. Sofia, uma menina doce, inteligente e alegre; sua mãe Elisabete, uma filósofa, provavelmente a mulher mais forte que eu havia conhecido até então. E foi um outro tempo que me trouxe até aqui.

O ano agora era 2015. Na emergência do hospital, que fui parar, depois que meu filho apresentou uma forte dor no joelho. Eu, já não tão jovem e com vinte anos de experiência, com um filho adolescente como Sofia à época que nos conhecemos. Quando meu filho leu na porta do consultório do médico “ortopedista oncológico” e me fez a pergunta: – Pai, eu tenho um câncer? Imediatamente parei, mesmo já tendo o provável diagnóstico de uma lesão inflamatória, algo bem simples, me revestiu de medo, me questionei se eu teria a força de Elisabete caso o resultado fosse outro. Se o diagnóstico fosse como o da sua filha, como será que eu reagiria? Essa e outras perguntas ficaram girando,sem resposta, pela minha cabeça.Pensei que a vida é um eterno ressignificar e, com esse pensamento, apaziguei minhas inquietações.

Foram anos intensos os que vivemos com Sofia. A vimos crescer entre tratamentos que por pior que fossem, podiam até lhe azedar o humor, mas nunca lhe abatiam o ânimo. Ela enfrentou muitas e complicadas cirurgias.A que tirou o osso da canela para colocar na coxa no lugar do que estava doente,e a deixou extremamente debilitada, a levou a um longo período imobilizada por uma tala de gesso que ia da parte de cima da perna até o pé. A fisioterapia foi de fundamental importância nesse e em tantos outros momentos dessa longa jornada.

Movimentos rotineiros e automáticos como acordar e ficar em pé, passaram a ser grandes eventos.Aprender a usar muletas foi desafiador sem deixar de ser divertido. Voltar a colocar o pé no chão, dobrar o joelho,foram grandes conquistas. A possibilidade de andar, significava bem mais que se mover. Significava muitas possibilidades, entre elas a de voltar a frequentar a escola. A cada dia os exercícios se tornavam mais intensos, e alimentados por essas conquistas,nos enchíamos de esperança. A dor e o cansaço de Sofia eram superados pela alegria que essas possibilidades alimentavam. Recorríamos a todos os recursos disponíveis. Elisabete aceitava com entusiasmo nossas propostas, e foi assim que fomos parar com a Sofia em uma piscina. Experiência singular essa. Sofia em pé na água, se movimentando e caminhando sem dor e sem apoio de muletas, pela primeira vez, com a alegria de quem está reconquistando a liberdade, foi felicidade indescritível.

Todos os desafios que Sofia nos impunha nos exigia contínuos estudos. Ela queria respostas para os seus porquês e para isso nos adiantávamos na pesquisa. Como age a quimioterapia, o que causa as intensas náuseas depois das sessões, como que exercícios que lhe causavam dor poderiam fazer com que melhorasse?Assim,diariamente questionados,estudávamos em busca de respostas.Nos debruçarmos em estudos sobre tratamentos cirúrgicos e quimioterapia, o que foi fundamental, já que passamos a acompanhar Sofia nas longas sessões. Descobrir que a fisioterapia aumentava a tolerância aos enjoos durante as horas em que ela ficava quase que imóvel recebendo a droga, além de útil, foi recompensador. Tanto ela quanto nós mesmos, fomos nos abastecendo de informações e conhecimentos, isso aumentava a confiança mútua. Um dia,Sofia fez um comentário que até hoje me intriga. Como uma afirmação ela ponderou que nós deveríamos ser médicos já que, segundo ela,sabíamos tanto. Fiquei intrigado se com essas palavras ela estaria elogiando o nosso trabalho e profissão, ou não. Seguidamente isso voltava ao meu pensamento.Já ao final do tratamento depois de muitos recomeços e tantas batalhas vencidas,eu soube a resposta para essa dúvida, quando Sofia sentenciou:“Que bom que vocês são fisioterapeutas e não médicos”. Ela percebeu, eu acho, a minha cara de espanto e continuou: “se fosse diferente não poderíamos ter tido a relação que tivemos e tenho certeza de que sem vocês eu não chegaria até aqui”. Para qualquer profissional ouvir algo assim, é motivo de orgulho, para nós, depois de uma convivência de anos e dito não mais por uma menina de onze, mas por uma linda adolescente, cuja cabeça tinha muito mais que lindos cabelos loiros, foi comovente. Como poderia ser diferente depois de tudo que vivemos? Depois de tudo que aprendemos, depois do que nos tornamos?

Pois então Sofia, o que quero dizer ao contar essa história é que, mesmo de forma diferente, crescemos juntos. Continuamos,sempre, nos aprimorando na busca pela melhor função dos nossos corpos. Quero dizer que contigo adquirimos a certeza de que o corpo é um todo e que a esperança e a persistência,fazem parte do resgate de uma vida com mais saúde. Com esse objetivo da união entre as partes resgatamos o todo, pelo qual somos apaixonado se, assim, valorizamos cada ganho, por menor que possa parecer,de cada movimento de qualquer instrumento, dessa grande orquestra que é o nosso corpo.

Somos apaixonados pelo que fazemos na busca por mais harmonia e, como consequência, e afinados com essa ideia,nos apaixonamos também pelas histórias que nossos corpos nos contam.

Obrigado Sofia.

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